terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

que acordo

há muito, muito tempo, ou se calhar não há tanto tempo quanto isso, Teixeira de Pascoaes protestava com renovações ortográfica do português europeu. Entre as suas queixas estava a de não concordar com a substituição de "y" em algumas palavras que hoje escrevemos com "i", por perderem, essas palavras, o seu profundo significado poético: lagryma, abysmo. Como posso não concordar? a perna que desce do "y" é uma lágrima derramada no poema, que escorre, assim como a queda profunda do abismo (abysmo, digo) é hoje, a nível escrito, mais baixa embora na realidade, a nível actual e concreta, seja mais alta.
mesmo assim - há uma ligeira diferença entre essa emenda ortográfica e o actual acordo. Não há uma diferença na pronunciação da palavra "lágryma" e "lágrima" - há apenas uma actualização porque a utilização dupla na altura da grafia com "y" e "i" demonstrava que a comunidade linguística portuguesa recorreria, provavelmente, mais ao "i" que ao poético "y" que Pascoaes defendeu. Ora hoje, meus amigos, não vejo qual é a necessária reformulação ortográfica, ou melhor, não como o Acordo corresponde às necessidades da comunidade linguística do português europeu. E notem: fui já chamada de "inteligente", "velho do Restelo" e "utópico defensor do quinto império português" por discordar com este acordo. Pois eu acredito que é a diversidade linguística e a existência de variedades que reside a beleza das Línguas modernas... e se vamos uniformizar todas as variedades (brasileira, moçambicana, etc...) segundo uma variedade (que é a do Brasil, pela sua imensidão e poder no mercado ... a meu ver) estamos realmente a acreditar num novo império ... o colonialismo linguístico continua ... mas já não é o Vasco da Gama nem todos os outros descobridores os seus agentes, mas sim a beleza da globalização e do mercantilismo (e privatização) do mundo moderno.
Chamem-me velho do Restelo ... eu chamo a isto novo imperialismo e assassínio da lusofonia.
Dá-me vontade de derramar uma enorme lagryma sobre o abysmo em que a cultura ibérica está a cair ... e vejo cada dia mais a Europa como um gigante império de autómatos cumpridores de normas... o Mercado está acima da Poesia ... o Mercado está acima da Língua ... o Mercado está acima da Vida e das nossas diferentes (e por isso belas) culturas distintas unidas por uma língua multi-forcada em várias...

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