há muito, muito tempo, ou se calhar não há tanto tempo quanto isso, Teixeira de Pascoaes protestava com renovações ortográfica do português europeu. Entre as suas queixas estava a de não concordar com a substituição de "y" em algumas palavras que hoje escrevemos com "i", por perderem, essas palavras, o seu profundo significado poético: lagryma, abysmo. Como posso não concordar? a perna que desce do "y" é uma lágrima derramada no poema, que escorre, assim como a queda profunda do abismo (abysmo, digo) é hoje, a nível escrito, mais baixa embora na realidade, a nível actual e concreta, seja mais alta.
mesmo assim - há uma ligeira diferença entre essa emenda ortográfica e o actual acordo. Não há uma diferença na pronunciação da palavra "lágryma" e "lágrima" - há apenas uma actualização porque a utilização dupla na altura da grafia com "y" e "i" demonstrava que a comunidade linguística portuguesa recorreria, provavelmente, mais ao "i" que ao poético "y" que Pascoaes defendeu. Ora hoje, meus amigos, não vejo qual é a necessária reformulação ortográfica, ou melhor, não como o Acordo corresponde às necessidades da comunidade linguística do português europeu. E notem: fui já chamada de "inteligente", "velho do Restelo" e "utópico defensor do quinto império português" por discordar com este acordo. Pois eu acredito que é a diversidade linguística e a existência de variedades que reside a beleza das Línguas modernas... e se vamos uniformizar todas as variedades (brasileira, moçambicana, etc...) segundo uma variedade (que é a do Brasil, pela sua imensidão e poder no mercado ... a meu ver) estamos realmente a acreditar num novo império ... o colonialismo linguístico continua ... mas já não é o Vasco da Gama nem todos os outros descobridores os seus agentes, mas sim a beleza da globalização e do mercantilismo (e privatização) do mundo moderno.
Chamem-me velho do Restelo ... eu chamo a isto novo imperialismo e assassínio da lusofonia.
Dá-me vontade de derramar uma enorme lagryma sobre o abysmo em que a cultura ibérica está a cair ... e vejo cada dia mais a Europa como um gigante império de autómatos cumpridores de normas... o Mercado está acima da Poesia ... o Mercado está acima da Língua ... o Mercado está acima da Vida e das nossas diferentes (e por isso belas) culturas distintas unidas por uma língua multi-forcada em várias...